Infância roubada, juventude frustrada. O que será do homem?
* Luiz Luna
Leonardo tem oito anos. Sua infância está sendo roubada. O menino possui atributos e responsabilidades de homem. Simpático, atencioso, detentor de uma aparente competência que inveja aos bons profissionais. Para sobreviver, Leonardo é atendente de uma barraca de beira de pista. Uma realidade que pode ser descrita de forma poética, no entanto, visivelmente constrangedora.
Na verdade, não gostaria de iniciar o primeiro parágrafo dessa forma. Porém, o mundo é cão. Os valores são invertidos. A Constituição Federal é desrespeitada. A dignidade da pessoa humana plenamente afrontada. Crianças trabalham Brasil afora para sobreviver. Outros não têm a mesma “sorte” e aderem à marginalidade. Princípios básicos são desrespeitados. Não há bom senso. Não há preocupação com a inocência do impúbere. Por outro lado, deixando a hipocrisia de lado, verificamos que crianças como Leonardo possuem um talento nato para modificar a sua história no transcorrer dos anos. Para isso, lógico, há que adquirir consciência de sua situação e desenvolver mecanismos para modificá-la. O que, convenhamos, não é uma tarefa fácil. A verdade é que se constata uma vida aparentemente triste, apesar de o menino trazer consigo um belo sorriso no rosto. Essa moeda tem dupla face: como poderia o pequeno sapeca ter sua alimentação garantida se não se aventurasse no trabalho de ajudar sua família? Nessa hora, constatamos o quanto nossa sociedade é artificial e, os nossos governantes, são meros burocratas. Fechamos os olhos para casos como esses o tempo todo.
Não é à toa que o educador Içami Tiba apregoa que “quem ama educa”. Mais que isso, quem gosta respeita, dando o melhor de si e cuidando para que seu filho tenha uma vida digna. Mesmo que para isso os sacrifícios estejam presentes durante a labuta. O Brasil é um país de contrastes. Na contramão da história, muitos adolescentes têm a vida que Leonardo pediu a Deus, rogou aos homens e jamais conquistará antes de transformar-se em adulto. Beatriz já chegou à adolescência, depois de viver uma boa infância. Possui pais dedicados, compartilha diversão com os amigos, mas não gosta de estudar. Leandro percorre o mesmo caminho. Talvez sequer tenham parado para pensar em quantos Leonardos existem nas histórias da vida. A concorrência não manda recado, vence de pronto aquele que não se prepara. Não podemos modificar o passado, diz o velho chavão, porém é possível plenamente construir o futuro que desejamos.
É preciso sonhar - disse ao garoto - depois de notar que ele já percebera que não tinha boas perspectivas e sequer soube responder o que desejava para o amanhã. O rolo compressor da rotina de trabalho e de sofrimento pouco a pouco apaga o que o futuro possa trazer de bom. É preciso mudar, é necessário desejar uma realidade mais humana, mais adequada para quem ainda consegui sorrir diante de fatos que causam indignação. À tarde, já cansado, o menino vai à escola e busca aprender. É o aprendizado, posteriormente transformado em bom conhecimento, que pode mudar o mundo. O seu mundo!
Dedicado à Beatriz, Leandro e, logicamente, Leonardo. Não necessariamente nessa ordem.
* Jornalista. Bacharel em Direito. Especialização em Gestão de Pessoas.
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